segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Até Hoje


Até Hoje
(leia ouvindo a música abaixo)

 Um dia, “eu, meu pai e minha mãe moramos juntos”.
A gente acordava aos sábados e fazia compras.
Gostávamos de caminhar pelo bairro, como se sempre fosse domingo.
Em nossa casa havia muito amor e eu me sentia a criança mais feliz do mundo.
Eu não me cansava de dizer “eu amo minha família!”.
Nossa verdade era uma verdade simples, de coisas pequenas e de grandes sonhos.
Eu não me sentia sozinha, porque meus pais estavam perto de mim.
Eu tinha um brilho nos olhos que todos podiam ver.
Minha sabedoria não estava apenas no nome,
porque eu realmente sabia o que fazer quando estávamos juntos.

Um dia, eu tive meu pai perto de mim diariamente.
Um dia, eu olhei pra minha mãe e vi alguém em quem poderia confiar.
Eu não tinha medo das coisas que aconteciam comigo.
Eu me sentia forte, sempre forte!
Eu me sentia amada; sempre amada!

Antes de dormir, eu tinha muitos beijos, ouvia história e abraçava meus bichinhos.
Antes de dormir, eu falava com Deus sobre minhas coisas.
Parecia pouco, mas eu sabia que eram minhas.
De manhã, sempre tinha música pra acordar.
- eu já acordava dançando e sorrindo –
Eu tomava banho ouvindo minhas músicas favoritas.
Meus pais acompanhavam minha vida
e eu sabia que valia a pena viver ali com eles.

Mas um dia, o egoísmo tomou conta da nossa casa.
Faltava carinho, faltava verdade. Faltou amor e também fidelidade.
Nossa paz não era mais a mesma e eu fiquei sozinha.
Apesar de haver muita gente perto de mim, eu estava sozinha.
Com apenas 3 anos, tive que aprender o que era depressão.
Tive que esconder a saudade que me fazia chorar.
Fantasiei uma volta impossível e criei um amor que jamais se acabaria.
No início da minha vida, perdi minha casa, minhas coisas, minha família.
Acostumei-me a ver meu pai chorar de saudade quando me via.
Percebi que minha mãe passou a viver uma vida só dela.

Senti falta do meu pai. Ele se afastou de mim.
Cheguei a pensar o que eu havia feito de errado.
Então eu chorei. Pedi que ele voltasse pra casa.
Perguntei pra minha mãe se ela ainda amava meu pai.
Perguntei ao meu pai se ele ainda amava minha mãe.

Minha vida mudou aos 3 anos de idade.
Eu não sabia ainda o que significava a palavra “solidão”, mas eu já a vivia.
Eu aprendi a chorar por dentro. Deixei de ser a princesa do papai.
Deixei de ser a razão e me tornei apenas mais uma.
Meu pai não era mais o mesmo. Minha mãe se tornou outra pessoa.
Meu lar acabou. Minha família acabou!

Eu suspirei: “por que eu sempre entorno tudo?”
E eu, com apenas 3 anos, sabia que a culpa era minha.
Então eu tentei não chorar mais. Tentei não chupar mais bico.
Comecei a pedir perdão quando eu derramava alguma coisa.
Tinha medo que não me amassem por causa disso.
Sentia-me triste porque eu errava. Tentei não errar mais.
Talvez por isso meu pai tenha ido embora...
Talvez meu cabelo fosse difícil demais de se pentear...
Talvez eu não soubesse fazer carinho nele...
Passei a esperar que o telefone tocasse e meu pai fosse me chamar.

Hoje eu cresci. Carrego dentro de mim o vazio que se abriu naqueles dias.
Eu ainda me sinto culpada.
Culpada porque ainda acreditava que tudo poderia voltar atrás.
Que tudo poderia ser como antes.
E minha casa seria de novo um lar onde todos se amariam de verdade.
Mas isso nunca mais voltou a acontecer...
Até hoje sinto falta do colo do papai e do carinho da mamãe.
Nunca mais parei meu rosto pra ganhar um beijo das duas pessoas
que mais me amavam no mundo...
As duas pessoas que eu mais amava...
Nunca mais vivi de novo aquele sentimento.
Apesar de ter sido curto e frágil, eu sei que ainda é o que me faz forte.
Até hoje...


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