Até Hoje
(leia ouvindo a música abaixo)
A gente acordava aos
sábados e fazia compras.
Gostávamos de
caminhar pelo bairro, como se sempre fosse domingo.
Em nossa casa havia
muito amor e eu me sentia a criança mais feliz do mundo.
Eu não me cansava de
dizer “eu amo minha família!”.
Nossa verdade era uma
verdade simples, de coisas pequenas e de grandes sonhos.
Eu não me sentia
sozinha, porque meus pais estavam perto de mim.
Eu tinha um brilho
nos olhos que todos podiam ver.
Minha sabedoria não
estava apenas no nome,
porque eu realmente
sabia o que fazer quando estávamos juntos.
Um dia, eu tive meu
pai perto de mim diariamente.
Um dia, eu olhei pra
minha mãe e vi alguém em quem poderia confiar.
Eu não tinha medo das
coisas que aconteciam comigo.
Eu me sentia forte,
sempre forte!
Eu me sentia amada;
sempre amada!
Antes de dormir, eu
tinha muitos beijos, ouvia história e abraçava meus bichinhos.
Antes de dormir, eu
falava com Deus sobre minhas coisas.
Parecia pouco, mas eu
sabia que eram minhas.
De manhã, sempre
tinha música pra acordar.
- eu já acordava
dançando e sorrindo –
Eu tomava banho
ouvindo minhas músicas favoritas.
Meus pais
acompanhavam minha vida
e eu sabia que valia
a pena viver ali com eles.
Mas um dia, o egoísmo
tomou conta da nossa casa.
Faltava carinho,
faltava verdade. Faltou amor e também fidelidade.
Nossa paz não era
mais a mesma e eu fiquei sozinha.
Apesar de haver muita
gente perto de mim, eu estava sozinha.
Com apenas 3 anos,
tive que aprender o que era depressão.
Tive que esconder a
saudade que me fazia chorar.
Fantasiei uma volta
impossível e criei um amor que jamais se acabaria.
No início da minha
vida, perdi minha casa, minhas coisas, minha família.
Acostumei-me a ver
meu pai chorar de saudade quando me via.
Percebi que minha mãe
passou a viver uma vida só dela.
Senti falta do meu
pai. Ele se afastou de mim.
Cheguei a pensar o
que eu havia feito de errado.
Então eu chorei. Pedi
que ele voltasse pra casa.
Perguntei pra minha mãe
se ela ainda amava meu pai.
Perguntei ao meu pai
se ele ainda amava minha mãe.
Minha vida mudou aos
3 anos de idade.
Eu não sabia ainda o
que significava a palavra “solidão”, mas eu já a vivia.
Eu aprendi a chorar
por dentro. Deixei de ser a princesa do papai.
Deixei de ser a razão
e me tornei apenas mais uma.
Meu pai não era mais
o mesmo. Minha mãe se tornou outra pessoa.
Meu lar acabou. Minha
família acabou!
Eu suspirei: “por que
eu sempre entorno tudo?”
E eu, com apenas 3
anos, sabia que a culpa era minha.
Então eu tentei não
chorar mais. Tentei não chupar mais bico.
Comecei a pedir perdão
quando eu derramava alguma coisa.
Tinha medo que não me
amassem por causa disso.
Sentia-me triste
porque eu errava. Tentei não errar mais.
Talvez por isso meu
pai tenha ido embora...
Talvez meu cabelo
fosse difícil demais de se pentear...
Talvez eu não
soubesse fazer carinho nele...
Passei a esperar que
o telefone tocasse e meu pai fosse me chamar.
Hoje eu cresci. Carrego
dentro de mim o vazio que se abriu naqueles dias.
Eu ainda me sinto
culpada.
Culpada porque ainda
acreditava que tudo poderia voltar atrás.
Que tudo poderia ser
como antes.
E minha casa seria de
novo um lar onde todos se amariam de verdade.
Mas isso nunca mais
voltou a acontecer...
Até hoje sinto falta do
colo do papai e do carinho da mamãe.
Nunca mais parei meu
rosto pra ganhar um beijo das duas pessoas
que mais me amavam no
mundo...
As duas pessoas que
eu mais amava...
Nunca mais vivi de
novo aquele sentimento.
Apesar de ter sido
curto e frágil, eu sei que ainda é o que me faz forte.
Até hoje...
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